Nasceu. Chorou. Automaticamente.
Retomou a consciência, ou melhor, adquiriu-a.
Entendia porque a pouco havia
chorado, Percebia que onde estava não era bom, ao contrário, era horrível. Sentiu
uma agonia, uma náusea, indescritível. Desesperado, chorou.
Os pais,ao perceberem que o bebê
chorava, deram-lhe o remédio.
Alguns minutos e o remédio fez
efeito.
Ele não mais chorava, via tudo de
um modo diferente. Pela janela, árvores de galhos espiralados radiavam, preenchidos
de flores celestes. Na calçada, andavam sérios, porém brandos homens,
dirigindo-se ao trabalho para mais um dia alegre. Donas de casa saíam à padaria
comprar pão para fazer o café da manhã. Sentados no banco da praça, um casal de
mãos dadas estreitava seus laços amorosos. Tudo era lindo.
Dias se passaram, e o efeito
passou. A náusea voltou, e com ela o choro.
Novamente seus pais deram-lhe o
remédio.
O efeito passava, davam-lhe o
remédio. E assim foi feito sucessivamente.
Passaram-se anos, e Fernando R.
Cardoso era agora um homem feito, 36 anos. Já não tomava remédio, longe disso,
nem ao menos se lembrava que um dia havia tomado o remédio. Trabalhava num
escritório. Ganhava pouco, trabalhava muito, mas não tinha de que reclamar.
Estava sentado, fazendo os
cotidianos relatórios, feliz por viver naquele generoso mundo. Pela janela,
árvores de galhos espiralados radiavam...
Postado por: Paulo de Mello
