terça-feira, 2 de outubro de 2012

O Remédio

Nasceu. Chorou. Automaticamente. Retomou a consciência, ou melhor, adquiriu-a.
Entendia porque a pouco havia chorado, Percebia que onde estava não era bom, ao contrário, era horrível. Sentiu uma agonia, uma náusea, indescritível. Desesperado, chorou.
Os pais,ao perceberem que o bebê chorava, deram-lhe o remédio.
Alguns minutos e o remédio fez efeito.
Ele não mais chorava, via tudo de um modo diferente. Pela janela, árvores de galhos espiralados radiavam, preenchidos de flores celestes. Na calçada, andavam sérios, porém brandos homens, dirigindo-se ao trabalho para mais um dia alegre. Donas de casa saíam à padaria comprar pão para fazer o café da manhã. Sentados no banco da praça, um casal de mãos dadas estreitava seus laços amorosos. Tudo era lindo.
Dias se passaram, e o efeito passou. A náusea voltou, e com ela o choro.
Novamente seus pais deram-lhe o remédio.
O efeito passava, davam-lhe o remédio. E assim foi feito sucessivamente.
Passaram-se anos, e Fernando R. Cardoso era agora um homem feito, 36 anos. Já não tomava remédio, longe disso, nem ao menos se lembrava que um dia havia tomado o remédio. Trabalhava num escritório. Ganhava pouco, trabalhava muito, mas não tinha de que reclamar.
Estava sentado, fazendo os cotidianos relatórios, feliz por viver naquele generoso mundo. Pela janela, árvores de galhos espiralados radiavam...

Postado por: Paulo de Mello